Dra. Daniela Rodriguez – Pediatra e Neonatologista em Vila Mariana – SP

Desde  a barriga da mãe, o bebê se desenvolve de diferentes formas. A maneira a qual ele é nutrido impacta diretamente no crescimento e desenvolvimento do cérebro e da saúde em geral.

Hábitos alimentares do começo da vida podem ditar condições de saúde e paladar da pessoa ao longo da vida. Quanto antes forem introduzidos alimentos saudáveis na rotina de uma pessoa, maiores as chances desses hábitos permanecerem.

O que é primeira infância?

A primeira infância começa na gestação e vai até os 6 anos de vida. Pode ser dividida em duas fases: até os 3 anos é considerada a primeira primeiríssima infância e até os 6 anos, a etapa da primeira infância é finalizada.

Essa divisão ocorre pelas diferenças significativas no desenvolvimento da criança entre as duas fases. Da gestação até os 2 anos de idade, há uma intensa fase de amadurecimento do cérebro, causando uma capacidade de absorção do ambiente. Desde o útero, com aproximadamente 25 semanas de gestação, é possível estimular a interação.

Entre os 4 e 6 anos, a criança tem uma autonomia maior. Ela já é capaz de se expressar, realizar atividades sozinha e tem uma cognição mais complexa. 

Como o aleitamento materno interfere no desenvolvimento da criança

O aleitamento materno pode fazer bem para a saúde do bebê e da mãe. É mais do que o ato de nutrir o bebê. Envolve impactos positivos à saúde física, mental, cognitiva etc.

De acordo com dados do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, o aleitamento tem capacidade de prevenir diarréias, infecções, obesidade e doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta. Além da prevenção, contribui para o desenvolvimento intelectual da criança. Em relação às mães, notou-se que o ato de amamentar pode ser uma medida de prevenção ao câncer de mama e à obesidade pós-parto.

O leite materno possui substâncias bioativas, que são fundamentais para o desenvolvimento cerebral. A interação da mãe com o bebê durante o processo de amamentação pode gerar benefícios, também, ao desenvolvimento intelectual e motor.

No Brasil, de acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI – 2019), a duração média do aleitamento materno exclusivo é de 3 meses, e de aleitamento materno de 16 meses. 

A OMS estabeleceu uma meta para 2030, de que, pelo menos, 70% das crianças com menos de 6 meses tenham o aleitamento materno exclusivo. A taxa do Brasil, em 2019/2020 era de 45,8%.

Contudo, existem mães que não conseguem amamentar. Isso é um fato a ser levado em consideração. Com o avanço da ciência e da medicina, é possível encontrar fórmulas que contenham vários dos nutrientes do leite materno. Uma alternativa muito interessante para que a criança tenha todas as substâncias necessárias é o banco de leite materno.

Algumas lactantes produzem leite em excesso e podem doar a esses bancos. O leite é pasteurizado e passado por um processo para deixá-lo totalmente seguro ao consumo de outros bebês. 

Infelizmente, a taxa de doação de leite é menor do que 5% no país. Dessa forma, poucas crianças têm o real acesso a um leite de tanta qualidade quanto a própria mãe poderia oferecer.

De qualquer forma, é essencial que a criança tenha acompanhamento com um/uma pediatra para avaliar o desenvolvimento nessa fase. 

Introdução alimentar

Após os 6 meses de vida, a criança tem um sistema digestivo com mais maturidade e deve receber novos alimentos para alimentação complementar. Essa complementação é necessária para que o bebê tenha as necessidades nutricionais supridas e resulte em um crescimento adequado.

É interessante apresentar diferentes texturas e formas dos alimentos para gerar mais interesse. Mesmo que ainda não tenha a presença dos dentes, é positiva a introdução de alimentos, como frutas com casca ou bagaço. A mastigação é estimulada através do movimento que a criança faz com as gengivas, triturando o alimento.

A introdução alimentar deve ser feita de maneira lenta e progressiva. Respeitando a criança e o interesse. Ao se deparar com novas texturas, sabores e aromas, ela pode apresentar certa resistência. Nesses momentos, é necessário ter paciência.

É legal porque toda a família pode participar. Enquanto o aleitamento, geralmente, é feito apenas pela mãe, a introdução alimentar pode ter maior participação do pai, dos avós e outros familiares.

Lembrando que a complementação alimentar deve ser feita com acompanhamento de um pediatra e/ou nutricionista pediátrico. Algumas famílias têm dúvidas a respeito de um cardápio saudável para a criança. Por isso a extrema importância dos profissionais. 

O cardápio deve conter, além do leite materno/fórmula, frutas, legumes, leguminosas, grãos cozidos, carnes e ovos. Uma alimentação rica em alimentos naturais, repletos de nutrientes. Até os dois anos de idade, é ideal evitar frituras, enlatados, embutidos, refrigerantes e açúcar. O sal e os temperos devem ser usados com bastante moderação, sem exageros, de forma bem leve.

Qual a importância dos hábitos alimentares da infância?

Os hábitos criados na infância podem ser fundamentais para uma alimentação saudável ao longo de toda a vida. A partir dos seis meses de idade, a criança passa a desenvolver paladar. Por isso, é extremamente necessário respeitar os limites da criança com determinados alimentos.

Especialistas indicam que não se deve castigar a criança caso ela não coma tudo ou que se dê uma recompensa se ela “limpar o prato”. Esse tipo de hábito pode estabelecer relações conflituosas entre a pessoa e a comida.

É esperado que, no começo, o bebê recuse diferentes texturas. É preciso oferecer algumas vezes para que a criança saiba do que ela gosta ou não. Porém, forçar que ela coma determinados alimentos ou uma quantidade pode ter o efeito totalmente contrário.

A criança que tem uma introdução alimentar e hábitos saudáveis tem muito mais chance de se tornar um adolescente e, consequentemente, um adulto saudável. 

Portanto, para um filho saudável pela maior parte da vida, opte pelo aleitamento materno, introdução e manutenção alimentar natural, sem presença de açúcar e processados. Assim, a criança já começa com o desenvolvimento esperado e só tende a melhorar.

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